Burla «Olá pai, olá mãe»: como funciona e como a travar
A burla «Olá pai, olá mãe» chega por mensagem de um número novo e termina num pedido urgente de dinheiro. Vê como funciona, os números da PSP e o que fazer antes de transferir.
A burla «Olá pai, olá mãe» é uma mensagem, quase sempre por WhatsApp, em que alguém se faz passar por um filho ou outro familiar próximo, diz que mudou de número e pede dinheiro com urgência. A forma mais simples de a travar é ligar para o número antigo do familiar antes de fazer qualquer transferência. Neste artigo explicamos como funciona, o que diz a PSP e o que fazer em cada momento.
Como funciona a burla, passo a passo
Segundo a descrição da PSP, o esquema segue quase sempre o mesmo guião:
- O primeiro contacto. Chega uma mensagem escrita de um número que não conheces. A pessoa apresenta-se como teu filho ou filha e, muitas vezes, usa uma fotografia do familiar no perfil para parecer credível.
- A desculpa. Diz que o telemóvel avariou ou se perdeu e que vai usar aquele número até comprar outro.
- O pedido. Pouco depois surge um pedido de dinheiro, por transferência bancária ou por uma app de pagamentos, para pagar uma conta, comprar ou reparar o telemóvel. É sempre urgente.
- A fuga à chamada. Se tentas ligar, a chamada não é atendida. A seguir chega uma mensagem a justificar («não consigo falar agora») e a pedir que o contacto continue só por escrito.
Um exemplo ilustrativo, construído a partir deste padrão: «Olá mãe, este é o meu número novo, o outro avariou. Guarda este. Preciso de um favor urgente, tenho uma conta para pagar hoje e a app do banco não funciona neste telemóvel.» O tom é carinhoso, a história é banal e o pedido vem depressa. É precisamente isso que a torna eficaz.
Os números em Portugal
Esta é uma das burlas mais denunciadas no país:
- A PSP recebeu 4.389 denúncias desta burla em 2023 e 260 só em janeiro de 2024 (dados provisórios divulgados pela PSP).
- No mesmo ano, a PSP registou 12.238 crimes de burla informática e nas comunicações, mais 10 % do que no ano anterior.
- A Polícia Judiciária fez detenções ligadas a este esquema em 2025. Em outubro de 2025, a PJ deteve dois suspeitos de uma rede com cerca de 300 vítimas e mais de 1 milhão de euros de prejuízo, que combinava o «Olá pai» com SMS falsas de encomendas e sextorsão.
- Num inquérito da Global Anti-Scam Alliance divulgado pela DECO PROteste em 2026, 77 % dos portugueses disseram ter sido alvo de pelo menos uma tentativa de burla online em 2025, e o WhatsApp foi a plataforma mais referida (46 %).
Variantes que convém conhecer
A conta verdadeira do familiar é roubada
Nem sempre a mensagem vem de um número novo. Uma técnica comum é pedir o código de 6 dígitos do WhatsApp («enviei-te um código por engano, reencaminha-mo»). Com esse código, o burlão fica com a conta e usa-a para pedir dinheiro aos contactos da vítima. Aqui, o número é o verdadeiro, o que torna a mensagem ainda mais convincente.
Sequestro da conta sem cliques
Em setembro de 2026 a PSP alertou para um ataque que combina uma falha de versões antigas do iOS com outra do WhatsApp, em que o atacante associa um dispositivo à conta sem que a vítima carregue em nada, e depois pede dinheiro aos contactos. A PSP recomenda atualizar o telemóvel, ativar a verificação em dois passos, rever os «Dispositivos associados» e combinar uma palavra secreta com a família.
Por chamada, e não só por mensagem
A mesma lógica (um familiar em apuros que precisa de dinheiro já) aparece também em chamadas. Explicamos esta variante em Voz clonada por IA: o «Olá mãe» agora também por chamada.
Sinais de alerta
- Número desconhecido que diz ser de um familiar «com telemóvel novo».
- Pedido de dinheiro na mesma conversa, pouco depois da apresentação.
- Urgência: «tem de ser hoje», «antes das 17 horas».
- Recusa em atender chamadas ou em fazer videochamada.
- Pagamento para uma conta ou um número em nome de outra pessoa.
- Erros de tratamento: o «filho» chama-te de forma diferente da habitual ou não sabe pormenores básicos.
O que fazer antes de transferir
Estas são as recomendações da PSP, com alguns hábitos práticos:
- Não transfiras nada enquanto não tiveres a certeza de quem está do outro lado.
- Liga para o número antigo do familiar. Na maioria dos casos, atende e o assunto fica resolvido em segundos.
- Faz perguntas que só o familiar saberia, como datas de aniversário, o curso que tirou ou a matrícula do carro da família.
- Combina uma palavra secreta com a família, para usar sempre que alguém pedir dinheiro por mensagem. Explicamos como escolher uma em Palavra secreta de família: a defesa simples contra burlas.
- Fala com outra pessoa da família antes de decidir. Os burlões contam com o isolamento e a pressa.
- Denuncia a tentativa às autoridades, mesmo que não tenhas perdido dinheiro.
Se já transferiste o dinheiro
Age depressa. O tempo conta para tentar travar ou reaver a transferência:
- Contacta logo o teu banco pelos contactos oficiais (os que estão no cartão ou no site do banco, nunca os que vieram na mensagem) e explica que foste vítima de burla.
- Guarda as provas: capturas de ecrã da conversa, o número usado, o IBAN ou o número para onde enviaste, datas e valores.
- Apresenta queixa na PSP, na GNR ou no Ministério Público. A burla pode também ser participada no Sistema Queixa Eletrónica do Ministério da Administração Interna, com identificação por Cartão de Cidadão ou Chave Móvel Digital. Se houver perigo imediato, liga 112.
- Avisa a família e os contactos, porque os burlões costumam tentar outras pessoas.
Temos um guia mais completo para estas horas em Caí na burla «Olá pai»: o que fazer nas primeiras horas.
Como proteger os pais e os avós
As vítimas são muitas vezes pais e avós que recebem a mensagem quando estão sozinhos. Três conversas em família ajudam muito: explicar o guião desta burla, combinar a palavra secreta e deixar claro que ninguém se vai zangar por desconfiarem e ligarem a confirmar. Vale a pena também ajudá-los a ativar a verificação em dois passos no WhatsApp e a nunca partilharem códigos recebidos por SMS.
E no JaPassa?
Nenhuma app de mensagens impede alguém de mentir numa conversa, e o JaPassa também não. Ainda assim, há ferramentas que ajudam a desconfiar e a agir:
- Cada conversa tem um código de segurança de 8 emojis que podes comparar com o teu familiar ao vivo e marcar como verificado. Se a pessoa entrar a partir de um aparelho novo, a conversa mostra um aviso.
- Em qualquer conversa podes usar «Denunciar» → «Burla ou fraude» e, se quiseres, enviar as últimas 10 mensagens para análise e bloquear a pessoa ao mesmo tempo.
- O teu número começa escondido por omissão, o que reduz a exposição a desconhecidos.
Mesmo assim, a regra de ouro é a mesma em qualquer app: pedido de dinheiro por mensagem confirma-se por outro canal antes de pagar.
Perguntas frequentes
Recebi uma mensagem «Olá mãe, mudei de número». É sempre burla?
Não necessariamente, mas trata-a como suspeita até confirmares. Liga para o número antigo ou fala com a pessoa por outro meio antes de guardares o contacto novo.
Respondi à mensagem mas não paguei. Corro algum risco?
O risco principal é seres contactado de novo. Não envies dados pessoais nem códigos, bloqueia o número e denuncia a tentativa.
O banco devolve o dinheiro?
Depende de cada caso e da rapidez com que contactas o banco. Por isso, o primeiro passo é ligar-lhe logo, pelos contactos oficiais.
Fontes
- DN — Só em janeiro houve 260 denúncias relativas à burla «Olá pai, olá mãe» (08/02/2024)
- Renascença — Dois detidos por esquema de burlas informáticas com prejuízo superior a 1 milhão de euros (03/10/2025)
- DECO PROteste — Portugueses alvo de tentativa de burla online chegaram a 77 % em 2025 (01/06/2026)
- Postal — PSP alerta para nova burla sem cliques (16/09/2026)
- DNoticias — Como apresentar uma queixa à polícia sem sair de casa (29/08/2026)
- Renascença — PJ detém suspeita de burla «Olá pai, olá mãe» (20/01/2025)