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Burlas e fraudes

Burla «Olá pai, olá mãe»: como funciona e como a travar

A burla «Olá pai, olá mãe» chega por mensagem de um número novo e termina num pedido urgente de dinheiro. Vê como funciona, os números da PSP e o que fazer antes de transferir.

Equipa JaPassa · · 6 min de leitura

A burla «Olá pai, olá mãe» é uma mensagem, quase sempre por WhatsApp, em que alguém se faz passar por um filho ou outro familiar próximo, diz que mudou de número e pede dinheiro com urgência. A forma mais simples de a travar é ligar para o número antigo do familiar antes de fazer qualquer transferência. Neste artigo explicamos como funciona, o que diz a PSP e o que fazer em cada momento.

Como funciona a burla, passo a passo

Segundo a descrição da PSP, o esquema segue quase sempre o mesmo guião:

  1. O primeiro contacto. Chega uma mensagem escrita de um número que não conheces. A pessoa apresenta-se como teu filho ou filha e, muitas vezes, usa uma fotografia do familiar no perfil para parecer credível.
  2. A desculpa. Diz que o telemóvel avariou ou se perdeu e que vai usar aquele número até comprar outro.
  3. O pedido. Pouco depois surge um pedido de dinheiro, por transferência bancária ou por uma app de pagamentos, para pagar uma conta, comprar ou reparar o telemóvel. É sempre urgente.
  4. A fuga à chamada. Se tentas ligar, a chamada não é atendida. A seguir chega uma mensagem a justificar («não consigo falar agora») e a pedir que o contacto continue só por escrito.

Um exemplo ilustrativo, construído a partir deste padrão: «Olá mãe, este é o meu número novo, o outro avariou. Guarda este. Preciso de um favor urgente, tenho uma conta para pagar hoje e a app do banco não funciona neste telemóvel.» O tom é carinhoso, a história é banal e o pedido vem depressa. É precisamente isso que a torna eficaz.

Os números em Portugal

Esta é uma das burlas mais denunciadas no país:

  • A PSP recebeu 4.389 denúncias desta burla em 2023 e 260 só em janeiro de 2024 (dados provisórios divulgados pela PSP).
  • No mesmo ano, a PSP registou 12.238 crimes de burla informática e nas comunicações, mais 10 % do que no ano anterior.
  • A Polícia Judiciária fez detenções ligadas a este esquema em 2025. Em outubro de 2025, a PJ deteve dois suspeitos de uma rede com cerca de 300 vítimas e mais de 1 milhão de euros de prejuízo, que combinava o «Olá pai» com SMS falsas de encomendas e sextorsão.
  • Num inquérito da Global Anti-Scam Alliance divulgado pela DECO PROteste em 2026, 77 % dos portugueses disseram ter sido alvo de pelo menos uma tentativa de burla online em 2025, e o WhatsApp foi a plataforma mais referida (46 %).

Variantes que convém conhecer

A conta verdadeira do familiar é roubada

Nem sempre a mensagem vem de um número novo. Uma técnica comum é pedir o código de 6 dígitos do WhatsApp («enviei-te um código por engano, reencaminha-mo»). Com esse código, o burlão fica com a conta e usa-a para pedir dinheiro aos contactos da vítima. Aqui, o número é o verdadeiro, o que torna a mensagem ainda mais convincente.

Sequestro da conta sem cliques

Em setembro de 2026 a PSP alertou para um ataque que combina uma falha de versões antigas do iOS com outra do WhatsApp, em que o atacante associa um dispositivo à conta sem que a vítima carregue em nada, e depois pede dinheiro aos contactos. A PSP recomenda atualizar o telemóvel, ativar a verificação em dois passos, rever os «Dispositivos associados» e combinar uma palavra secreta com a família.

Por chamada, e não só por mensagem

A mesma lógica (um familiar em apuros que precisa de dinheiro já) aparece também em chamadas. Explicamos esta variante em Voz clonada por IA: o «Olá mãe» agora também por chamada.

Sinais de alerta

  • Número desconhecido que diz ser de um familiar «com telemóvel novo».
  • Pedido de dinheiro na mesma conversa, pouco depois da apresentação.
  • Urgência: «tem de ser hoje», «antes das 17 horas».
  • Recusa em atender chamadas ou em fazer videochamada.
  • Pagamento para uma conta ou um número em nome de outra pessoa.
  • Erros de tratamento: o «filho» chama-te de forma diferente da habitual ou não sabe pormenores básicos.

O que fazer antes de transferir

Estas são as recomendações da PSP, com alguns hábitos práticos:

  1. Não transfiras nada enquanto não tiveres a certeza de quem está do outro lado.
  2. Liga para o número antigo do familiar. Na maioria dos casos, atende e o assunto fica resolvido em segundos.
  3. Faz perguntas que só o familiar saberia, como datas de aniversário, o curso que tirou ou a matrícula do carro da família.
  4. Combina uma palavra secreta com a família, para usar sempre que alguém pedir dinheiro por mensagem. Explicamos como escolher uma em Palavra secreta de família: a defesa simples contra burlas.
  5. Fala com outra pessoa da família antes de decidir. Os burlões contam com o isolamento e a pressa.
  6. Denuncia a tentativa às autoridades, mesmo que não tenhas perdido dinheiro.

Se já transferiste o dinheiro

Age depressa. O tempo conta para tentar travar ou reaver a transferência:

  1. Contacta logo o teu banco pelos contactos oficiais (os que estão no cartão ou no site do banco, nunca os que vieram na mensagem) e explica que foste vítima de burla.
  2. Guarda as provas: capturas de ecrã da conversa, o número usado, o IBAN ou o número para onde enviaste, datas e valores.
  3. Apresenta queixa na PSP, na GNR ou no Ministério Público. A burla pode também ser participada no Sistema Queixa Eletrónica do Ministério da Administração Interna, com identificação por Cartão de Cidadão ou Chave Móvel Digital. Se houver perigo imediato, liga 112.
  4. Avisa a família e os contactos, porque os burlões costumam tentar outras pessoas.

Temos um guia mais completo para estas horas em Caí na burla «Olá pai»: o que fazer nas primeiras horas.

Como proteger os pais e os avós

As vítimas são muitas vezes pais e avós que recebem a mensagem quando estão sozinhos. Três conversas em família ajudam muito: explicar o guião desta burla, combinar a palavra secreta e deixar claro que ninguém se vai zangar por desconfiarem e ligarem a confirmar. Vale a pena também ajudá-los a ativar a verificação em dois passos no WhatsApp e a nunca partilharem códigos recebidos por SMS.

E no JaPassa?

Nenhuma app de mensagens impede alguém de mentir numa conversa, e o JaPassa também não. Ainda assim, há ferramentas que ajudam a desconfiar e a agir:

  • Cada conversa tem um código de segurança de 8 emojis que podes comparar com o teu familiar ao vivo e marcar como verificado. Se a pessoa entrar a partir de um aparelho novo, a conversa mostra um aviso.
  • Em qualquer conversa podes usar «Denunciar» → «Burla ou fraude» e, se quiseres, enviar as últimas 10 mensagens para análise e bloquear a pessoa ao mesmo tempo.
  • O teu número começa escondido por omissão, o que reduz a exposição a desconhecidos.

Mesmo assim, a regra de ouro é a mesma em qualquer app: pedido de dinheiro por mensagem confirma-se por outro canal antes de pagar.

Perguntas frequentes

Recebi uma mensagem «Olá mãe, mudei de número». É sempre burla?

Não necessariamente, mas trata-a como suspeita até confirmares. Liga para o número antigo ou fala com a pessoa por outro meio antes de guardares o contacto novo.

Respondi à mensagem mas não paguei. Corro algum risco?

O risco principal é seres contactado de novo. Não envies dados pessoais nem códigos, bloqueia o número e denuncia a tentativa.

O banco devolve o dinheiro?

Depende de cada caso e da rapidez com que contactas o banco. Por isso, o primeiro passo é ligar-lhe logo, pelos contactos oficiais.

Fontes

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